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O VIKING VOADOR

Domingo, abril de 1972. Pouco mais que três da tarde. O sol brilha alto tendo, como pano de fundo, imenso céu azul. Uma brisa permeia tudo, mantendo a temperatura amena, agradável, como é próprio a um dia de Outono. No vestiário de um clube, num vilarejo do interior, um grupo de jovens na faixa dos vinte e poucos anos e dorsos desnudos aguarda, ansioso, que o técnico inicie a distribuição de camisas.

O lugar é pequeno, apertado. Um odor ocre de suor, misturado ao cheiro de cânfora dos óleos de massagem rescende e deixa o ar viciado, difícil de respirar. Há uma crescente tensão no ambiente: ninguém admite ficar de fora, todos querem jogar! A reserva, para um jogador de várzea é algo tão doloroso quanto a frustração de uma criança que espera por um presente de Natal que nunca chega, ele joga por amor.

Todos ali passaram a semana dando duro na usina, ajudando aos pais em casa ou simplesmente estudando. Independente da ocupação, cada jovem, naquele vestiário, superou tudo ao longo da semana pensando num único momento mágico e restaurador: o jogo de domingo e, agora, essa hora tinha chegado.

Por capricho, implicância, “ovo virado” do técnico, corria-se sempre o risco de ficarmos de fora, não sermos escalados. Assim, domingo após domingo, na hora da distribuição das camisas vivia-se sempre a mesma ansiedade, a mesma tensão. Nesses momentos pairava um silêncio estranho no ar.

Finalmente o treinador, um sujeito de poucas palavras e com ares de quem não se deve esperar favores ou gestos de simpatia, posta-se no centro do vestiário, ao lado de um enorme saco de lona verde. O time vai ser escalado, as camisas distribuídas. O “técnico” se curva para alcançar o interior daquele fardo e, a cada camisa que pega, repete o ritual: dá uma rápida olhada no número, às costas, e, em seguida, percorre o grupo com seus olhos pequenos e frios.

Encontrando o jogador a quem aquela camisa se destina, sem dizer palavra, atira-lhe o “manto sagrado”. Naquele instante ele é como um general, distribuindo armas à tropa antes da batalha. Alguém capaz de proporcionar, a um só tempo e com igual intensidade, alegria e frustração: a uns, por tê-los feito titulares e, a outros, por ter-lhes destinado a reserva.

Sou um dos goleiros do time. Súbito, vejo uma camisa negra, desbotada, puída nos cotovelos, com um número “1” vermelho costurado às costas e um emblema triangular no peito voar em minha direção. Eu a agarro com prazer: “Oba, vou jogar!”.  É a única coisa que a euforia me permite pensar.

Enfio logo a camisa no corpo e a ajeito, completando o uniforme constituído também de chuteiras, meias, sunga e calção. Nenhum gesto de humanidade para com meu colega de posição, cabisbaixo, por ter sido uma vez mais preterido, me ocorre. Mas, é assim que as coisas são no duro mundo do futebol. Especialmente no futebol de várzea. Além do que há um entendimento tácito, nesse ambiente, de que o chamado “esporte bretão” não foi feito para maricas, “filhinhos da mamãe”. É coisa para macho e como tal deve ser encarado.

BILLY VIVEIROS – Foto Arquivo pessoal

A esta altura resta-me apenas colocar a parte mais sofisticada de minha “armadura”: meu par de luvas de couro marrom, revestida de borracha de bolinhas, como as das raquetes de pingue-pongue. Esse capricho custara-me uma bicicleta novinha. Eu precisei vendê-la para ter dinheiro suficiente para a luva! (No início dos anos 1970, mesmo entre profissionais, ainda são poucos os goleiros que usam luvas e as poucas disponíveis no mercado custam seu peso em ouro.)

Mas eu consegui o meu par e é isso o que importa. Enquanto eu as calço percebo o olhar de curiosidade e admiração do restante do time. Demais! Na verdade, estou radiante por poder jogar, por poder me exibir para toda a torcida (Meu Deus! Tudo é mesmo “vaidade debaixo do Sol”). Ali mesmo, no vestiário, dou uns saltos para cima, buscando me aquecer. Depois, por minha própria conta e risco, faço exercícios de alongamento que, imagino, serem certos. Afinal, achar que o glorioso São Paulo Electric Futebol Club (o time tinha esse nome esquisitão por ter sido fundado por engenheiros gringos da Light) tem massagista ou um fisicultor seria sonhar demais!

Falando francamente, além do uniforme, a gente só tem mesmo uma bola de couro gasta e uma bomba e bico para enchê-la de ar. Por isso, se no desenrolar da partida, por azar ou inabilidade, um becão der uma bicuda e a bola sumir no mato ou furar, adeus jogo!

Pego a bola com gomos pretos e brancos, no padrão Copa 70, e perfilo o time para a entrada em campo. O juiz, algum ilustre desconhecido, escolhido minutos antes entre os torcedores, assopra o apito lá do centro do gramado convocando os times para a peleja.

O jogo é em nossa “casa” e isso significa que temos o direito de entrar em campo depois do time visitante. Ao ver que o outro time já entrou, desço correndo o barranco do vestiário, rumo ao campo, seguido por 10 sujeitos “elegantemente” trajados. Para ser franco, o melhor que podem dizer de nós é que somos uma reedição do “Exército de Brancaleone” – tantos os remendos, cerzidos e desbotados em nossos uniformes. Mas, isso é frescura, detalhes estéticos sem importância. O que vale mesmo é jogarmos duro e vencermos o adversário.

Em seguida, já no gramado, mais umas firulas, umas corridas curtas daqui para lá, de lá para cá, exercícios abdominais e uns chutes curtos para “aquecer “. Estamos prontos: a partida vai começar.

Goleiro Ado, Meu goleiro-herói 

Ora, todo garoto, seja no mundo das artes ou dos esportes, tem sempre alguém, um ídolo, em quem se espelhar e eu não fujo à regra. Também tenho o meu “goleiro-herói”, o cara a ser imitado e quem é ele? Ora, nenhum outro senão: Eduardo Roberto Stinghen! “Heim? Quem?!” Ah, desculpe-me. Apresentando-o assim, com esse nome de soldado alemão, fica mesmo difícil adivinhar. Mas, se eu revelar o seu apelido a coisa muda de figura. Meu herói é conhecido como Ado, goleiro do Corinthians. Um dos 22 heróis que estiveram no México, dois anos atrás, e de lá voltaram tricampeões mundiais de futebol.

goleiro Ado
Figurinha da Copa de 70 do Goleiro Ado
Divulgação CBF

Por um ainda incompreensível fenômeno de transcendência, nesta tarde sinto que não sou mais eu quem está sob a trave, mas, o próprio Ado! Então, modéstia à parte, não importa como a bola venha, será quase impossível ela me vencer. Sentindo a defesa segura, o ataque intuitivamente se solta lá na frente. Alguns gols no primeiro tempo, outros no segundo e, agora, faltando menos de cinco minutos para o final da partida, o placar aponta um humilhante 4×0 sobre o adversário, um verdadeiro massacre.

Já no “crepúsculo da partida”, como um conhecido locutor esportivo costumava dizer, cobro mais um tiro de meta, aqueles chutões que os goleiros dão para reporem a bola em jogo. Chuto forte, de pé esquerdo e enquanto observo a trajetória da bola indo rumo ao campo adversário fico imaginando se algum dia terei a chance de encontrar o meu ídolo, apertar-lhe a mão, pedir um autógrafo.

goleiro Ado

Domingo, fevereiro de 2004. Pouco mais que 3 da tarde… O sol brilha alto, tendo, como pano de fundo, imenso céu azul. Se há brisa lá fora não sei. Estou no escritório de casa, lembrando-me disto tudo e registrando no computador. Com certa tristeza penso que, infelizmente, o encontro com o meu ídolo e aquele, pedido de autógrafo, nunca aconteceu. Tiro os óculos, levanto-me um instante para “esticar o esqueleto”. Caminho até a cozinha. Abro a geladeira. Alcanço uma jarra de vidro. Sirvo-me de uma dose generosa de suco de laranja. Levo o copo aos lábios e fecho os olhos ao sentir o líquido refrescante descendo garganta abaixo. Então, numa fração de segundos, diante da porta da geladeira ocorre-me algo e sorrio. Penso que talvez, agora, ao tirar estas lembranças da memória e registrá-las no teclado de meu computador eu, finalmente, tenha conseguido. Grande Ado, sinta-se abraçado!

POR BILLY VIVEIROS

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